Não sei por que motivo, mas não me enquadrava muito com as outras crianças e se jogasse algo com elas, era a menina que meia hora depois estava a chorar, e a prof vinha com um rebuçado aí eu parava.
Era aquela que no recreio sentava sozinha com a lancheira...tinha uma só, da Barbie e o lanche era quase sempre o mesmo Sandes mista, maçã verde e água, odiava aquilo. Punham-me na ultima carteira, por ser ''alta'' apesar de usar um par de ''cacos'' , mas mesmo assim de mim vinham os melhores desenhos, as melhores notas, o melhor comportamento. Lembro-me que uma vez a professora mandou-nos fazer um trabalho de um ano lectivo para o outro a brincar, ninguém levou a serio e fui a unica a entregar, no primeiro dia de aulas, e a stora nem se lembrava.
Gostava também de passarinhos e observar formigas, e punha açúcar proximo delas só para lhes ver agitadas. Plantava tudo o que era semente e não só, ficava feliz quando realmente crescessem plantas, tanto que conversava com elas.
Mas há umas coisas que por mais que o tempo passe não me esqueço: dos colegas que antes eram gozados e discriminados inclusive pelos professores e que hoje sei que não eram idiotas, eram deficientes. Dos ''rufias'' que me maltratavam muito, quando eu não conseguisse bater a bola, correr depressa ou qualquer dessas coisas que as minhas perninhas na altura não permitiam. Das professoras que me humilharam e chorei por isso. Do dia em que fui para a escola de camião com o meu tio, e chorei porque todo mundo estava a rir. Do dia em que não fui escolhida para fazer parte do grupo de dança das meninas por ser ''muito alta''. Quando todos se riam dos sapatinhos com meia de renda que eu usava, e eu chorava porque a minha mãe é que me vestia. Quando uma estupida me fez chorar, porque à frente de todo o mundo começou a dizer que eu já não tinha idade para usar lancheira, que tinha que trazer dinheiro para o lanche, por isso era ''boela'' (tinha 8 anos e ela devia ter 9 ou 10). Isso só me isolava mais das outras crianças. Mas eu mandei foder tudo e todos, tinha notas impossiveis, e todos os mimos inimagináveis por isso.
My first BFF
Até que conheci a Sandra, caboverdiana, boa aluna, não tratava mal ninguém, também com poucos amigos, desenhava muito bem também e adorava Barbies, betinha mas não tanto quanto eu. Era uma irmã para mim, passava tardes na minha casa, eu na dela. Os nossos pais se conheciam, eu queria ser como ela, imitar o que ela fazia, ter o que ela tinha, fazer o que ela fazia, porque a achava demais!
Só que... ela foi embora, voltou para CV. Deixou-me uns nrs de telefone de CV, tentava contactá-la todos os dias com a minha mãe e quando nos atenderam, atenderam tão mal, que eu chorei, chorei não por isso, mas porque senti que era o fim da minha amizade de 4 anos com a Sandra e que nunca mais a iria ver. Nunca gostei tanto de uma pessoa como dela, ela também gostava muito de mim. Eramos irmãs como a mãe dela dizia. Lembro-me de tudo, do Bobby o cão dela, da mãe dela, da casa dela, do pai dela, do sorriso dela, do penteado que usava sempre, da letra, do caderno,do que vestia, das mãos, dos desenhos e do lanche dela que era sempre melhor que o meu, do que ela gostava e não gostava.
Tenho até hoje um bilhete escrito na altura em que ela foi-se embora, não me lembro o que escrevi. Mas esse bilhete escrevi à noite, quando não conseguia dormir de tanto chorar, e pus dentro de um bonequinho de enfeite da sala que tinha um buraquinho na base. O bilhete está lá até hoje, e o bonequinho por sorte ainda existe. Decididamente vou partir o boneco de vidro ainda este ano, porque é impossivel tirar o bilhete porque ele não passa pelo buraquinho. Procurei Sandra pelo hi5 na época em que todo mundo tinha, na esperança de que em CV pudesse encontrar algum vestigio. E nada. Hoje mesmo fui ao Facebook procurei por Sandra Miranda e nada. A não ser que a cara dela tenha mudado muito, o que não acho.
Hoje já não choro, mas sinto ainda a falta dela. O vazio que ficou, quando fomos totalmente separadas quando crianças. Perdi a minha amiguinga de infãncia, a única amiga da escola. E voltei a ficar sozinha. Até que em 2004 na 5ªclasse, numa turma diferente, sem amigos, sentada no fundo da sala, conheço outra rapariga que mudou a minha vida também. Alguém que veio compensar a dor de ter perdido a minha amiguinha. Miriam Joceline Lisboa de Almeida... ( o resto só depois noutro post)



Ai Mari...quase chorei!! Ainda tou com lágrimas nos olhos, porque eu senti isso toda minha vida. Acho que ainda sinto um pouco. Lembrei de um post em que escrevi que mesmo rodeada de gente me sinto sozinha. De ser nerd e betinha entendo bem..hehehe..e da solidão que isso pode significar entendo melhor! Felizmente fomos "salvas por almas caridosas". Que sejamos muito felizes...sempre!!
ResponderEliminarLooool, hoje já não choro, mas em algumas situações recentes sinto a mesma insegurança que sentia antes. Tipo querer fugir, ter medo das pessoas não sei, mas epah, hoje resolvo isolando-me, ficando na minha. E depois já existem Ipods, antes nepia, nem telemovel sequer eu tinha.
ResponderEliminarPois... que sejamos muito felizes e realizadas!
ResponderEliminarLindas palavras!
ResponderEliminarSe há algo no mundo realmente indispensável para a vida de qualquer ser humano, é a amizade!
Sem dúvidas...
Obrigado querida :D
ResponderEliminarSozinhos somos praticamente ninguém xD Bjos